Cobertura do poder

Cobertura do poder

Ilustração: Carla Nardi

A pergunta é: como se faz Jornalismo Político? A cobertura política tem a obrigação que todo jornalismo tem, independente da área: informar o cidadão, sempre fiel aos fatos, a fim de proporcionar reflexão e formação de opinião a respeito da própria realidade do leitor, ouvinte ou telespectador. O Jornalismo Político deve noticiar desde as decisões tomadas pelo poder público, até os abusos administrativos dos políticos.

Para a jornalista Cynara Menezes, da revista Carta Capital, a cobertura política no país é bem feita e por profissionais capazes. No entanto, os jornais direcionam o noticiário contra a esquerda e o PT, sob a desculpa da imparcialidade, mas na verdade para atender seus próprios interesses políticos e econômicos, descuidando de outros aspectos da cobertura.

“Pelo nível dos jornalistas que temos no Brasil, seria possível fazer um Jornalismo Político com qualidade muito maior, se não fosse exigido destes profissionais uma imparcialidade que na verdade não existe”, afirma. A jornalista Cristiana Lôbo, apresentadora do Fatos e Versões, na GloboNews, assegura que não existe um órgão de imprensa habituado em assumir apoio a este ou àquele candidato.

Porém, a acompanhante confessa da política brasileira há mais de 30 anos lembra que isso já ocorreu com o jornal O Estado de S. Paulo (nas eleições municipais do ano passado, o Estadão publicou um editorial declarando apoio ao José Serra) e também com as Organizações Globo – o projeto Memória da TV Globo recentemente reconheceu que foi um erro ter apoiado o Regime Militar.

“Por parte dos jornalistas, independentemente das empresas para as quais trabalham, há um esforço diário para tratar a notícia com imparcialidade. Mas há que se reconhecer que, pelas redes sociais a coisa é bem diferente”, explica Cristiana, que também comenta sobre os “blogs independentes” (sem ligação com empresas de comunicação), os quais, segundo ela, são inclinados a um lado ou outro, na maioria das vezes para o sentido do governo, “que é quem tem a caneta e os recursos”.

O jornalista e cronista Ricardo Chapola, de O Estado de S. Paulo, defende que alguns veículos fazem melhores coberturas que outros, entretanto, poderia ser bem melhor em todos eles. “Mas aí a gente esbarra numa série de problemas, não editoriais, mas a falta de espaço, por exemplo, no caso do jornal impresso”, expõe o jovem, que com apenas 24 anos e cinco de carreira, participou da cobertura das eleições de 2010 e 2012.

“Para fazer uma cobertura legal é preciso mais espaço, e isso o jornal não tem. O jornal vem com um número de páginas fechadas por editoria e o editor precisa se virar para distribuir aquele espaço da maneira que o convém”, esclarece. Em contraponto, Cynara acredita que um dos maiores problemas que o jornalista político enfrenta é a dificuldade financeira.

Com a crise nos impressos, ela conta que os cortes são feitos justamente nas viagens, que é onde as reportagens mais rendem. “Me parece um equívoco cortar aí, porque é com matérias especiais, exclusivas que os jornais podem recuperar velhos leitores e ganhar novos”. E isso reflete, inclusive, uma das mudanças ocorridas com o Jornalismo Político de uns tempos para cá.

Cynara recorda que na década de 90 os jornalistas viajavam muito para fazer matérias especiais. “Lembro que Xico Sá, por exemplo, quando era repórter de política na Folha, foi até a Tailândia atrás de Paulo César Farias [PC Farias, tesoureiro de campanha de Fernando Collor e Itamar Franco nas eleições presidenciais de 1989] e deu um furo daqueles. Talvez hoje o jornal dissesse não ter dinheiro para bancar a viagem”.

A repórter ainda coloca em questão o método de cobertura atual, “sisudo e burocrático”, sendo que, quando trabalhou no jornal Folha de S. Paulo teve a oportunidade de produzir matérias políticas muito mais “divertidas”, método que foi se perdendo com o tempo nas redações nacionais. Ao que parece, as mudanças ocorridas na editoria política nas últimas décadas se devem, então, às próprias mudanças que o mundo todo enfrenta, sobretudo as novas tecnologias. Será?

A década de 70 foi marcada pelo regime fechado no país, em que os jornais sofriam censuras, tendo que publicar receitas em lugar de matérias (caso sucedido com o Estadão). Em 80, segundo Cristiana, a oposição ocupava espaço reduzido nos jornais, o que, aos poucos, foi mudando, à medida que a nova Constituição era divulgada. E na década de 90, a cobertura jornalística mais importante relativa à política foi o primeiro impeachment de um presidente da República eleito pelo país, Fernando Collor.

“Depois da instauração de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), instrumento que passou a existir nas regras atuais após a Constituição de 88, investigações da imprensa mostraram desvio de dinheiro público para pagar despesas pessoais do presidente. Então ele [Fernando Collor] acabou perdendo o mandato”, pontua Cristiana.

Mas a história do Jornalismo Político brasileiro teve início bem antes, logo após a ditadura de Getúlio Vargas (1937 a 1945), o Estado Novo. Esse período foi considerado o penúltimo não-democrático. Depois disso os jornais passaram a informar tudo o que acontecia no Congresso Nacional. Porém, em 1950 Vargas foi eleito novamente, dessa vez por meio do voto, e foi quando o Jornalismo Político se tornou mais independente, porém, nada imparcial.

O historiador Boris Fausto, no livro Jornalismo Político, conta que com o suicídio de Vargas, em 1954, as pessoas saíram às ruas, sensibilizadas, e queimaram os caminhões carregados com a edição do jornal O Globo, que era declaradamente contra o presidente. Cinco anos antes havia surgido, também, o jornal Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, que tinha objetivos particulares, como divulgar suas próprias opiniões.

Com isso, o jornalista sofreu um atentado e quase foi assassinado. Mais tarde, em dezembro de 1968, após três anos do governo Castello Branco, o Congresso Nacional escolheu o Marechal Costa e Silva como novo presidente. Nesse período foi instaurado o AI-5 (Ato Institucional Nº 5), e com ele a mais forte censura da história da imprensa, episódio que perdurou até meados de 1979.

Todavia, um problema de saúde fez Costa e Silva se afastar do cargo, dando lugar ao General Garrastazu Médici, em 1969. Sobre a repressão neste período, Claudio Abramo, na época jornalista da Folha de S. Paulo, descreve no livro A regra do jogo que “de 1969 a 1972 a Folha atravessou um período negro, em que não havia espaço político algum no jornal. Na verdade, o jornal não tinha condições de resistir à pressão do governo, e por isso não provocava”.

Em outubro de 1975, o jornalista e diretor da TV Cultura, Vladimir Herzog, foi até o DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo para prestar depoimento a respeito de sua ligação com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Lá foi duramente torturado até a morte, deixando mulher e dois filhos, mas na época o atestado foi registrado como suicídio. (A família recebeu o documento corrigido 38 anos depois, em março desse ano).

Para Cristiana Lôbo, da GloboNews, um comunicador não enfrenta muitas dificuldades nos dias atuais para conseguir noticiar os fatos políticos. Embora ache que o governo do momento é bastante fechado, o Congresso é aberto e transparente. Porém, ela alerta para o caso do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda hoje critica os meios de comunicação e defende sua regulamentação.

“A relação dele com a imprensa é tão desgastada que se nega a dar entrevistas a qualquer jornal ou emissora. Desde que deixou a presidência, Lula deu entrevista ao jornal Brasil Econômico, cujo proprietário tem relações pessoais com o PT, e, recentemente, a jornais dos sindicatos, além de ter falado com a revista Valor Econômico”, lembra.

Sobre a atual governante, a apresentadora enfatiza que ela pouco fala com jornalistas. “Por estilo próprio, a presidente não gosta quando uma informação vaza para a imprensa antes da divulgação oficial. Há casos em que ela recua da decisão por conta disso”, continua Cristiana, que vê essa deficiência não apenas no mandato Dilma, mas em todos os que sucederam com esse grupo no poder.

3 Comentários para “Cobertura do poder”

  1. Povo Esclarecido | 16/10/2013 às 9:15 | Responder

    Isso é conversa para boi dormir. Ficam polarizando a política para tentar ludibriar a população. Mas isso já não está funcionando mais. O povo já se deu conta que não existe mais esquerda nem direita. O que existe é uma máfia oficializada para extrair dinheiro do cidadão e distribuí-lo para os companheiros da classe política, funcionários públicos e cabos eleitorais. A frase mais emblemática e que está na boca do povo é: “Tudo farinha do mesmo saco”.

  2. Quem diz que esquerda e direita não existem é de direita. Sempre.

  3. Grande parte dos jornalistas são de esquerda sem terem a real noção do que é esquerda ou direita. O PT nunca foi de esquerda. O PT usa os dois lados para tirar proveito, para enriquecer os cumpanheru e permanecer no poder. Os grandes “esquerdistas” fundadores do PT caíram foram, ficaram enojados com as atitudes dos seus dirigentes.

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