Imprensa e poder

Imprensa e poder

A democracia é entendida por proporcionar um estilo de vida identificado pelo respeito à dignidade da pessoa, pela liberdade e pela igualdade de direitos e oportunidades, pela implementação de um regime político que se caracterize pelo contínuo aprimoramento da liberdade de expressão política, e de pensamento. Mas a tão propalada democracia enfrenta um imenso paradoxo: dentro da democracia tudo deve parecer civilizado, decente e justo, mas se obedecemos com muita rigidez a todas essas regras, como ficaria a disputa pelo poder?

É perfeitamente possível a percepção que mesmo em uma democracia o que se vê na superfície é apenas uma camada cintilante de um caldeirão de emoções escusas (ganância, inveja, luxúria e ódio). O mundo atual se imagina o pináculo da justiça social, mas as mesmas e feias emoções continuam se constituindo como a base de muitos dos homens públicos. O tempo passou, mas a disputa pelo poder continua seguindo os mesmos ritos do passado.

No jogo do poder não existem princípios; apenas fatos. Não existem o bem e o mal, apenas circunstâncias. O poder é essencialmente amoral e neste jogo não se julgam os adversários por suas intenções, mas pelo efeito de suas ações.

O poder é um jogo social, é um leque de possibilidades sem fim, de logro, sedução e manipulação, no jornalismo não é diferente! Seria ingenuidade pensar que a cobertura política é feita de forma imparcial e sem interesses pessoais. Muito pelo contrário!

O jornalismo diário que é feito dentro do Congresso Nacional, por exemplo, é uma valsa muito bem ensaiada dos políticos com os jornalistas, tudo muito bem combinado antes de ir ao ar ou ser publicado. Políticos e jornalistas se respeitam e se reverenciam entre si.

O Jornalismo Político que temos hoje no Brasil está mais para assessoria de imprensa do que jornalismo propriamente dito. A concordância em tornar público determinado fato é normalmente muito bem articulado por jornalistas e assessores de imprensa do parlamentar. Há casos que é a própria assessoria que faz a matéria e o famoso jornalista apenas dá uma pequena mexida aqui e ali no texto.

É aparentemente duvidosa a qualidade do Jornalismo Político feito no Brasil de hoje. As relações entre a imprensa e o poder são baseadas nas regras já há muito estabelecidas. Em minha opinião poderia haver mais distanciamento entre as partes, mas a convivência diária não propicia isso, e como antes de sermos jornalistas somos humanos, acabamos por nos deixar levar pelo arranjo tal como é…

Há, realmente, uma certa “promiscuidade” entre jornalistas e políticos, tanto assim que existe até um site (Congresso em Foco) que premia os “melhores parlamentares” a cada ano. É uma imensa festa, muito prestigiada em Brasília. Os jornalistas políticos são tão autoridade quanto as próprias autoridades premiadas. Eu, particularmente, acho desnecessária a premiação, não vejo sequer uma justificativa para tamanha “bajulação”, mas em Brasília é assim… Muita coisa acontece sem lógica ou justificativa.

Acredito que esta bajulação abre caminho para atitudes eticamente questionáveis, prejudiciais a sociedade que tem o direito à informação. Acredito que nesta relação tão próxima entre o poder e a imprensa é o cidadão o maior prejudicado ao invés de ser defendido, mas lamentavelmente estas são as regras do “contrato consensualizado” entre as partes. A relação imprensa/poder precisa ser repensada no Brasil. A prática nefanda em vigor é nociva a democracia, é nociva ao povo e ao país. Espero que o tempo possa corrigir os defeitos dessa relação.

luciana-lopez*

 

Luciana Lopez é jornalista, assessora de imprensa do PSDB-DF e Movimento Resgatando Brasília, além de membro da Executiva, do Diretório do PSDB-DF e do Instituto Teotônio Vilela.

Blog: Resenha Política – O Mundo é a Notícia!
Twitter: @lopezluciana

Artigo elaborado exclusivamente para o Cobertura.

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